Vigília Antes da Sineta
Oratório Menor · convés dois · primeira sineta antes do quarto de combate.
A capelania pesava menos àquela hora. A Sub-Comissária Rós ajoelhou diante do símbolo gravado, retirou a luva esquerda e pousou a palma sobre o ferro frio.
Atrás de si, a Operadora Karp aguardava no limiar. Quatro quartos a bordo do Vigil-of-the-North e ainda não sabia se devia entrar.
— Entras ou ficas. Não há registo para o meio-caminho — disse Rós, sem se voltar.
Karp avançou. As suas botas fizeram menos ruído do que ela esperava.
— Sub-Comissária, o briefing é à terceira sineta.
— Eu sei.
— Esteve aqui toda a noite, senhora?
Rós não respondeu de imediato. Ergueu-se, voltou a calçar a luva e virou-se para a mais jovem. O fato pressurizado tinha uma marca antiga sobre o coração, três perfurações limpas e equidistantes.
— Quando jurei — disse Rós —, ensinaram-me que a vigília não começa à terceira sineta. Começa quando consigo dormir antes dela. Eu ainda não consigo. Tu consegues?
Karp baixou os olhos.
— Esta noite, não.
— Bem.
Rós aproximou-se, pousou brevemente a mão direita no ombro de Karp — peso curto, sem afecto — e fez um gesto para o símbolo.
— Cinco minutos. Depois fecha o oratório. Pro Humanitate, Operadora.
— Semper Vigilo, Sub-Comissária.
Rós saiu. Karp ajoelhou onde a outra ajoelhara, e o ferro guardava ainda o calor de uma palma humana. Acima, no convés três, a primeira sineta do quarto seguinte soou.
Microficção canónica dentro do estado narrativo da República. Estabelece a câmara, a marca, a disciplina da vigília que começa antes da sineta.
- Género. Slice-of-life com contenção grimdark.
- Função. Peça de estabelecimento — primeira entrada formal no registo canónico.
- Resíduo doutrinal. A vigília começa quando o Cidadão consegue dormir antes dela. Muitos nunca conseguem.