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Codex Liber V T2_SHORT_FICTION L5.T2.A001
Conto curto — Sineta de Combate

Sineta de Combate

Estado · vigens Liber · Narração Fontes · 1
I §I Briefing
Convés cinco · sala de briefing dois · terceira sineta.

A sala estava ocupada quando Rós entrou. O Comissário Idris Var — fato cinzento sem insígnia, gola fechada à militar — aguardava junto à projecção. Sob a luz fria, o rosto parecia talhado em pedra antiga.

A Sub-Comissária Helena Rós tomou o seu lugar à frente. Atrás de si, em linha, três jurados: o Operador Sénior Mikael Porth, o Cabo Yan Esca e a recém-jurada Operadora Tess Karp. Karp respirava pela boca, como quem ainda não confia que o ar fechado da sala lhe pertença aos pulmões.

— Catorze minutos — disse Var, sem cumprimentar. — A janela abre à quarta sineta. Atendam à projecção.

A imagem coalhou sobre a mesa: um casco mercante, classe média, sem identificação visível, à deriva a três horas do Vigil-of-the-North. Os reactores apagados. Os luzeiros do convés, também. Apenas uma baliza táctil pulsava a vermelho — sinal doutrinal de socorro, mal-codificado.

Mercator-7. Manifesto declarado: cereais, têxteis, combustível secundário — disse Var. — Tripulação registada: dezasseis, todos jurados. A baliza está activa há quarenta e duas horas. O código de socorro está incompleto: cinco letras correctas, três trocadas. Nenhum jurado comete esse erro.

Rós conhecia a frase. Não respondeu. Esperou.

Iurisdictio Territorialis aplicada — continuou Var. — O Mercator-7 jaz em sector de patrulha do Sanctum Officium Vigiliae. Entram; identificam quem estiver a bordo; documentam qualquer divergência do manifesto; recolhem prova selada. Se jurados vivos, regressam connosco. Se não-jurados vivos, Iurisdictio Territorialis. Se houver sinais de heresia confirmada e a cadeia probatória estiver limpa, admite-se o Ius Gladii. Não fazemos prisioneiros.

— Munição? — perguntou Porth, sem erguer os olhos do dossier.

— Carga única. Paga em silêncio.

— Comunicações? — perguntou Rós.

Canal B selado durante a aproximação. Reabre na confirmação do alvo. Canal C reservado a relato de execução, se aplicável.

Karp acenou duas vezes — uma a mais. Rós notou. Var também.

— Operadora — disse Var. — Primeira operação?

— Sim, Comissário.

— Vai com Porth. Faz exactamente o que ele te disser. Antes de qualquer decisão tua, repete em silêncio: Pro Humanitate. Se a frase chegar antes do gesto, executa. Se o gesto chegar antes da frase, espera.

— Sim, Comissário.

Var fechou a projecção. Por um instante a mesa segurou apenas a sua sombra.

— Catorze minutos — repetiu. — Pro Humanitate.

Semper Vigilo — responderam os quatro.

II §II Aproximação
Vaivém Lupa-Three · convés inferior · janela aberta.

O vaivém desacoplou do convés cinco com um suspiro hidráulico que Karp sentiu mais nos dentes do que nos ouvidos. Os fatos pressurizados estavam selados. O capacete de Rós, pousado no joelho, tinha a banda interior gasta por mil sinetas anteriores.

— Três horas, ponta a ponta — disse Porth, sem se voltar. — Aproximação pelo eixo dorsal. Eclusa no Mercator-7 à popa. Sem propulsão activa no alvo. Sem assinatura térmica. Sem rotação anómala. À primeira vista, derelicto.

— «À primeira vista» não é vista — disse Rós.

— Não é, Sub-Comissária.

Karp olhou para a marca no peito de Rós. Não era a primeira vez que olhava, mas era a primeira sob a luz nua de um vaivém em curso de combate. As três perfurações, equidistantes, marcavam a couraça como pontos de uma fórmula que ainda não sabia ler.

Rós notou mas nada disse. Cruzou os pulsos sobre o capacete, fechou os olhos e respirou três vezes — lento, controlado. O fato moveu-se ligeiramente no abdómen a cada inspiração.

Esca tirou uma fita fina de oração de uma bolsa lateral, leu-a baixinho, voltou a guardá-la. Porth abriu o painel das munições, contou as cargas — sete por homem, sete para Karp, sete para Rós — e fechou o painel sem comentário. A conta batia. No silêncio, a conta bate sempre.

A última hora antes da janela de eclusa pertencia ao silêncio. Sempre fora assim. Karp cruzou os pulsos como Rós e respirou três vezes, e à terceira o joelho dela ainda tremia um pouco, o que fingiu não notar.

III §III Eclusa e contacto
Mercator-7 · eclusa de popa · Canal B fechado.

A eclusa abriu sem resistência. Isso era má notícia. Uma eclusa que abre limpa é uma eclusa que alguém preparou.

— Marcha um — sussurrou Rós no canal interno. — Porth à frente. Esca à direita. Karp atrás de Porth, a dois passos, não ultrapassar. Eu na retaguarda. Marca de tempo: quarenta minutos, máximo.

A pressão era estável. As luzes do corredor pulsavam em ritmo lento de emergência — verde, verde, vermelho, verde, verde, vermelho. Cheirava a óleo queimado, e a algo mais ténue que Rós conhecia mas Karp ainda não: sangue oxidado dentro de um fato pressurizado.

No primeiro corredor, dois corpos. Tripulação. Fato selado, capacete intacto, mortos por descompressão localizada. Não pareciam ter resistido. Porth ajoelhou um instante, virou um dos corpos, leu a placa de identificação no peito.

— Manifestados — disse. — Jurados.

— Sela-os — respondeu Rós.

Esca passou um selo doutrinal sobre cada peito — um quadrado de polímero negro com o sigilo do Sanctum Officium queimado nele. Era o selo de memória: significava que estes mortos regressariam ao Vigil-of-the-North, sem identificação herética, e receberiam o rito que lhes era devido.

Karp observou Porth durante o procedimento. Porth observou o corredor. Quando o procedimento terminou, Karp não disse «Pro Humanitate». Não fora instruída a fazê-lo. Ainda assim, o seu silêncio fechou como uma frase.

No segundo corredor, encontraram a fonte da descompressão: um contentor mal selado, ainda em ciclo de purga, com a placa de manifesto arrancada. O símbolo gravado por baixo da placa arrancada não era o do mercante. Era um símbolo torcido — humano, mas torcido. Um pilar invertido. Uma linha cortada onde devia haver continuidade.

— Heresia confirmada — disse Rós, na voz baixa de quem confirma um peso há muito sentido. — Iurisdictio Territorialis aplicada. Non Admittendi a partir deste momento.

— Recebido — disseram os outros, num coro de respirações curtas.

Daí em diante, a operação era outra. A presença herética significava que pelo menos um tripulante não fora jurado — ou fora, e caíra. Significava que o silêncio do segundo corredor não era luto. Era espera.

— Porth, Karp, sala de máquinas — ordenou Rós. — Esca comigo, ponte. Canal B abre só no contacto. Marca de tempo: trinta minutos, máximo.

IV §IV A ponte
Ponte do Mercator-7 · luz mínima · seis minutos antes do limite.

Rós e Esca encontraram o capitão na ponte. Estava sentado na cadeira de comando, capacete pousado no colo, fato intacto. Vivo. O olhar atravessava Rós sem registar surpresa.

Tinha o pilar invertido tatuado na palma da mão direita. Não o escondia.

— Jurado? — perguntou Rós, em voz que não subiu.

— Fui — respondeu o homem.

— Renegou?

— Não.

— Coacção?

— Não.

— Causa?

— Não respondo a essa pergunta.

Esca posicionou-se à direita do alvo, a dois passos. Rós ficou de frente. A mão dela não deslizou para o coldre — não houve gesto dramático. Apenas a verificação interna, três vezes, que aprendera na sua primeira operação, antes da marca lhe ter sido feita: o nome, a circunstância, a doutrina.

— Capitão Aurel Drest, do Mercator-7 — disse Rós, na cadência que Karp, no convés inferior, ouviria dois minutos depois pelo Canal C. — Foi jurado em 03-09-2018. Renunciou sob sua própria testemunha, em data não declarada. Traz na mão o símbolo de heresia confirmada. Iurisdictio Territorialis aplica-se. Reclamo o teu nome para o registo do Sanctum Officium Vigiliae. Reclamo a tua espada para a República. Pro Humanitate.

Drest olhou para ela. Olhou para a marca no peito dela. Sorriu — não com derrisão, não com medo, sorriu com um estranho reconhecimento. Como quem reconhece uma irmã antiga.

— Três perfurações — disse. — Equidistantes. Vigil-of-the-South, suponho.

Rós não respondeu. Não havia voz que coubesse à resposta.

— Tens companhia comigo, Sub-Comissária — disse Drest, baixando o queixo. — Ali. Aqui. Em toda a parte. Continuem a achá-los. Pro Humanitate, dizem.

A cadência de Rós não falhou. A mão saiu do coldre, alta, certa, sem hesitação entre fórmula e gesto. Sacramentum Vigiliae confirmatum. Gladius Doctrinae extractus. O som foi pequeno — o supressor estava devidamente colocado, e o Vigil-of-the-North preferia que as execuções soassem a pontos finais, não a pontos de exclamação.

Drest caiu de lado. Esca passou-lhe sobre o peito o selo de Non Admittendi — quadrado vermelho, sigilo oposto ao do jurado. Não regressou ao Vigil-of-the-North. Não regressou a parte alguma.

Rós ficou um momento em silêncio. Esca não comentou. Em treze segundos, o Canal C abriu.

— Sub-Comissária — veio a voz de Porth. — Sala de máquinas limpa. Três corpos manifestados, jurados, selados. Um corpo não-manifestado, marca herética na palma direita. Karp efectuou a neutralização. Confirmação por Canal C requerida.

Houve uma pausa. Rós fechou os olhos, abriu-os.

— Confirmado — disse. — Actum Gladii duplicado. Sela.

— Recebido.

V §V Regresso
Vaivém Lupa-Three · regresso · sineta tardia.

O vaivém pesava mais no regresso. O peso não vinha da carga: vinha das três bolsas seladas no compartimento traseiro, uma com o capacete de Drest, outra com a placa torcida do contentor, a terceira com a tatuagem da palma do não-manifestado da sala de máquinas, cortada por Porth com a precisão limpa de quem aprendera o procedimento numa operação anterior.

Karp sentou-se ao lado de Rós. Não falou durante quinze minutos. Quando falou, a voz era mais baixa do que no oratório, o que parecia impossível.

— Sub-Comissária.

— Sim.

— A primeira frase chegou antes do gesto. Foi por isso que executei.

— Eu sei.

— Não senti medo.

Rós considerou aquilo.

— Esta noite — disse — sentirás medo em diferido. É o que acontece da primeira vez. Não é fraqueza. É a frase a chegar tarde. Quando passar, vais querer dormir.

— Sim, Sub-Comissária.

— E vais.

Karp não respondeu. Pressionou os pulsos contra os joelhos e olhou para o painel do vaivém, onde a marca de tempo descontava para a sineta de regresso. À frente, atrás de uma porta, Esca contava as cargas restantes — três por homem, três para Karp, três para Rós.

Rós olhou para a marca antiga no seu próprio peito, depois virou os olhos para o compartimento traseiro, onde a tatuagem cortada de Drest jazia selada na terceira bolsa. Tens companhia comigo, dissera ele. Rós não respondera na ponte; não respondia agora também. Mas o eco persistia — o eco de uma operação anterior, da fragata-irmã, dos três pares de pontos sobre o seu próprio coração, do nome que ainda não pronunciara em voz alta.

Quando o Vigil-of-the-North apareceu no painel frontal, grande e cinzento e firme contra o escuro, Rós ergueu-se, pôs o capacete debaixo do braço e falou a fórmula que Var lhe ensinara vinte e dois anos antes, que repetira, sineta após sineta, sem nunca deixar o sentido gastar-se:

Pro Humanitate. Semper Vigilo. Unum Genus. Una Res Publica. Una Vigilantia.

Os outros responderam. Karp respondeu. A voz tremeu-lhe um pouco. Era a voz certa.

A eclusa do Vigil-of-the-North abriu para os receber.

Pro Humanitate. Semper Vigilo. Assim fala a Vigília.